A minha pequena “estória”

69, o Quartel General

por: Vítor, “Casqueiro” & Pelé & Zé Maria & Cipriano & Quim Tintureiro


A Casa


Mítica casa onde moravam mais de 40 pessoas, 12 inquilinos, os quais se encontravam distribuídos da seguinte forma:

No Corredor:

-Cândida Bacarau(1ª a morar lá)/ Berta Dias,

-Adelaide Xidades,

-Maria Dias,

-Marquinhas Marelinha,

No Quintal:

-Melinha Viúva,

-Estér da Borrada,

-Marquinhas do Ernesto,

-Meia Tigela

No Palácio:

-Ligeira, no 1º esquerdo

-A Grande, no 1º direito

-Sãozinha Labareda no 2º esquerdo

-Sra. Maria Casqueira no Sotão

Só havia 3 casas-de-banho ( uma “caga boi” ou “à caçador”, e duas sanitas). O maior problema da casa era a grande quantidade de crianças, que juntas pareciam verdadeiros ‘índios’.


O Braço do Tone Padeiro


Há nas traseiras desta casa um muro que dá acesso à Quinta do Arcebispo. Essa quinta, devido à abundância de pomares, funcionava como uma espécie de despensa à qual se recorria quando a fome apertava.
A melhor história da ‘quinta do arcebispo’ foi a seguinte:
Certa vez, puseram-se 12 rapazes em cima da ramada a roubar uvas brancas. O peso era tanto, que a ramada vergou e o Tone Padeiro com a queda partiu o braço.


O Bacalhau do Arcebispo


Num dia em que fomos às pêras, passamos pelo tanque debaixo das escadas, no prédio onde o Arcebispo vivia, que dava acesso ao refeitório. Ficamos curiosos ao ver que o tanque tinha uma tampa de ferro e metemos a mão lá dentro. Estava um bacalhau de molho que tinha como destino o almoço do Arcebispo, mas nós roubámo-lo para matar a fome.


A Melancia dos porcos


No 69, a Sãozinha Labaredas tinha uma corte de porcos no fundo do quintal. Certo dia a Sãozinha pediu ao Zé Maria e ao Abílio para ir com o carrinho buscar lavadura à praça. Estavam os dois na praça sentados à espera que a Labaredas trouxesse a lavadura. Juntamente com a lavadura veio uma melancia suculenta que tinha como destino os porcos. Mas como já passava da uma hora da tarde e os dois rapazes estavam com fome, deitaram a mão à melancia e comeram-na. Quando a Sãozinha chegou da Praça, perguntou pela Melancia e os dois responderam prontamente “Comemos, então tínhamos fome, comemos.” E ela respondeu “Então vocês comeram a Melancia que era para os porcos??” A fome era tanta que até a melancia que era para os porcos, era tida como petisco.


A Corte transformada em Castelo


A Sãozinha Labaredas entretanto foi para França e a corte dos porcos, passou a ser o Castelo dos rapazes do 69. Como eram só crianças aquilo ficou tudo destruído. Um dia soubemos que a senhora estava de regresso e tivemos que arranjar maneira de pôr a corte apresentável. Quando ela chegou nem deu pelos estragos.


Porco vivo…Porco morto


Certo dia, Maria Casqueira, que também tinha um Porco, foi abordada pelo Penetra para adquirir o mesmo . Este oferecia 750 escudos pelo porco. Ora o filho desta respondeu-lhe ”Oh mãe, manda-o f*der, ele quer carne e quer dinheiro, por isso fica ‘masé’ com o porco”. Como o negócio não parecia bom, decidiram ficar com o porco. No dia seguinte quando acordaram e foram à corte… o porco tinha morrido. Ainda tiveram que chamar o Eduardo Cigano para levar o porco.


A fruta do Arcebispo


Saímos do 69 às 6 horas da manhã. Avançamos o muro da quinta do arcebispo e fomos às nozes que estavam num barracão a secar. Nesse barracão encontravam-se milhares de nozes e maçãs a amadurecer em cima de palha. Os cinco que lá fomos abrimos uma janela, nesse momento tocava o sino para a missa das 6 na igreja de são Victor e entramos dentro do barracão.Com mochilas às costas e sacas plásticas trazia-mos maças e nozes. No regresso, ao subir a videira da ramada para saltar o muro, as mochilas não passavam nos arames da ramada. Toca a descer outra vez a videira e passar de mão em mão as mochilas e as sacas para cima do muro. E daí vinham para as despensas das casas da rua de São Domingos onde se passava muita fartura nada.


Passagem de ano de carroça pelas ruas..

por: Vítor, “Casqueiro”



Na década de 60, já a televisão tinha dado os primeiros passos, ainda as discotecas rareavam e a “revellion” não fazia parte do cartaz de diversões da época. E, mesmo que assim fosse, não seria para as nossas bolsas. Por isso,tínhamos que arranjar formas mais económicas, que ao mesmo tempo tivessem uma pequena dose de aventura.
Abaixo dos antigos “carmelitas”, na rua Bernardo Sequeira, existia nessa época um barracão, com portão e tudo o mais, para guardar os bens no seu interior. Na noite de fim de ano juntavam-se em grupo alguns amigos que trepando para o telhado do dito cujo, levantavam algumas telhas e já prevenidos com uma corda apropriada, prendiam-na nos barrotes em madeira e dessa forma desciam para o seu interior. O passo seguinte seria abrir por dentro o portão e franquear a entrada aos restantes. Tudo isto para quê ? Então não é que lá dentro estava aquilo que nos ia proporcionar uma noite de fim de ano diferente.

Uma carroça !!

Ao menos, por uma noite, podíamos substituir os animais que a puxavam.
Depois de retirada do seu interior, era decorada a preceito, com latas e tudo o que fizesse barulho para chamar a atenção por onde passávamos. Uns a pé, a puxá-la; outros á boleia no “poleiro”; percorríamos as principais ruas da cidade, Rua 31 de Janeiro, Av. Central, e passávamos pela Arcada e pelo “Nosso Café” onde havia maior aglomeração de pessoas, sendo já uma atracção esperada nessa noite.
Por sorte ou desconhecimento, nunca fomos abordados pelo seu dono que verdade seja dita, nem nós sabíamos quem era, mas zelávamos pelo artefacto como se ele fosse nosso.
Depois desta “revellion” á nossa moda, regressávamos ao ponto de partida, tornando a pôr tudo como dantes e nem sabíamos se o dono tinha dado por isso.
Na despedida, manifestava-mos a esperança de que “a nossa carroça” continuasse lá no próximo ano.

Foi assim, durante alguns anos a nossa passagem de ano.

Os sapatos de tacão…

por: Mário Lima



Muitas vezes, a aventura resumia-se simplesmente a apanhar uma peça de fruta num qualquer quintal ou pomar.

A minha pequena “estória”, passa-se em plena época de Outono/Inverno. Já nem me lembro da fruta que nessa altura do ano saciava os estômagos. O local do “crime”, foi num campo onde hoje se situa o mercado do Carandá, junto à rua 31 de Janeiro.

Por entre o milho, os mais afoitos, aproximaram-se das árvores de fruta, que já ficavam bem perto da casa do lavrador. Escolheram as peças a gosto, abastecendo os bolsos ou a enseada. A certa altura alguém grita:
– Fujam! Vem aí o lavrador.
Ah pernas para que te quero. Nestas alturas, nem para trás se olhava, para confirmar se o alerta era verdadeiro ou falso, o que muitas vezes acontecia.

Calçava eu, uns sapatos à moda de então, relativamente novos, com tacões altos e fivela; os primeiros desse género, julgo eu. Com a pressa de fugir e com o terreno enlameado pelas chuvas, quando cheguei à estrada, para desgosto meu, já só tinha um sapato calçado. O outro tinha ficado algures enterrado pelo tacão, no meio do milho.

A alguma distância do local, verificamos que não havia sinais do lavrador. Teria sido falso alarme? Bem, eu não podia ir para casa sem um sapato! Como iria justificar, ter perdido um sapato? E as consequências? Nestas ocasiões, prevalecia a solidariedade.

Regressamos novamente ao local, dispersos, á procura por entre o milho, mais ou menos no local onde poderia ter ficado. É então que vemos alguém saindo da casa, correndo na nossa direcção, e alguém diz:
– Fujam que eles também vêem de carro pela rua.

Aí, com um pé descalço e outro calçado, percorri juntamente com outros em tempo recorde a distância até ao café Chave D’Ouro.
A noite já tinha começado a cair, o café estava apinhado de gente e por entre mesas e cadeiras, só paramos dentro da casa de banho, para espanto geral. Aguardamos largos minutos, até recuperar o fôlego, na esperança de que não estivesse alguém à nossa espera cá fora.
Do mal o menos, não havia sinais do lavrador.

A má notícia chegou mais tarde. Alguém tinha sido apanhado e levado à policia.
Um de nós, no trajecto deparou com um grupo de rapazes junto a uma fogueira nos prédios da rodovia. Misturou-se, achou que era o melhor disfarce. Só que entretanto, o carro perseguidor parou junto à berma, tentando vislumbrar entre os presentes, se algum pertenceria ao grupo dos “assaltantes”, chegando mesmo a sair do carro. Rapidamente o nosso amigo, meteu a primeira, deu corda aos sapatos e arrancou em direcção aos Sarotos, infiltrando-se pelos campos, local onde viria a ser apanhado e entregue na polícia.

Aí chegado, as perguntas da praxe; nome, morada, pai, mãe etc., passando de seguida ao interrogatório:

– Então andavas a “roubar” fruta?
Ele quase sem deixar acabar a frase, com as veias no pescoço a sobressair, para clamar a sua inocência:
– Eu senhor guarda? Estava sossegado a aquecer-me numa fogueira, quando estes indivíduos que eu não conheço, apareceram.
– Diz o polícia. Então porque fugiste?
– Da forma brusca como eles se dirigiam, pensei o pior.
O guarda, olhando para os bolsos dele diz-lhe:
– Então, despeja aqui os teus bolsos.
Foi aí que o disfarce caiu por terra. Era fruta da melhor; de várias qualidades a rolar na mesa da esquadra.
O policia ainda quis saber quem eram os “confrades” mas… nem um nome. Estava sozinho!
O sapato, esse, nunca chegou a aparecer.

Os pilha galinhas

por: “Pelé”



Todas as noites de 30 de Novembro alguns amigos reuniam-se para ir à festa do 1º de Dezembro, muito festejado na altura em Braga. Madrugada adentro, depois da festa, vínhamos pelos quintais, de galinheiro em galinheiro e levávamos uma galinha no saco. Numa dessas noites um dos amigos do grupo indicou-nos o galinheiro de sua mãe e lá fomos buscar uma galinha à sua própria casa.
Azar dos azares, nessa mesma noite tinham roubado umas galinhas de um qualquer senhor importante da cidade. Ora por esse motivo a polícia andava a fazer rondas em busca dos ladrões.
Nós íamos com um saco de galinhas quando avistamos a polícia. Nisto, ali ao pé das Carmelitas, deixamos cair o saco para lá do muro, no meio do mato e ,disfarçadamente, continuamos caminho. O problema foi um dos guardas ter reparado que algo foi largado junto ao muro. Saltou-o para o meio do mato para ver o que tínhamos despachado. Ao ver as galinhas a mexerem-se dentro do saco percebeu que estas tinham sido roubadas e iniciou uma perseguição ao grupo. Começamos a correr conseguindo fugir, mas um dos amigos foi apanhado. Interrogado, acabou por dar com a língua nos dentes e denunciar os outros. Lá fomos todos para a esquadra. Presente a interrogatório o amigo, “dono” das galinhas, acabou por explicar que as galinhas eram da mãe dele. Assim sendo, não se tratava de um crime, mas os Srs. guardas queriam ainda que nós descobrissemos quem tinha roubado as galinhas do tal Sr. importante da cidade, pedido ao qual não atendemos.